BOCA DO INFERNO E MEMORIAL DO CONVENTO:

BRASIL E PORTUGAL SOB O ESTIGMA DA OPRESSÃO

 

Maria Márcia Matos Pinto - USP

 

 

            Boca do Inferno, de Ana Miranda, e Memorial do Convento, de José Saramago, produzem retratos de Brasil e Portugal que colocam em destaque a opressão, a violência e a miséria, frutos do modo como o poder está configurado. As duas obras tratam de épocas muito próximas – final do século XVII, a primeira, e início até meados do século XVIII, a segunda –, estando a temática geral bastante próxima, tanto pelo dado do retorno à história passada dos dois países, como pela opção de tratar de momentos em que o poder estabelecido age de forma autoritária.

            A ação em Boca do Inferno centra-se na luta entre duas facções: a dos Vieira Ravasco, da qual fazem parte Padre Vieira e Gregório de Matos, e a do governador Antonio de Souza, alcunhado o Braço de Prata, homem imponente que governa a Bahia de forma autoritária – poderíamos dizer com braço de ferro ou “de prata” e, portanto, a metonímia da alcunha liga-se tanto ao homem como à forma como governa – infringindo inclusive as regras ditadas pela coroa portuguesa.

No romance, há um confronto de poderes mais ou menos equivalentes. A facção dos Ravasco, apesar de sofrer a violência do governo autoritário, sendo alguns de seus membros encarcerados e torturados, e outros mortos, era, assim como a facção do Braço de Prata, composta por homens de cabedal. Esta é uma luta de meros interesses pessoais que acaba por definir as condições políticas e sociais do Brasil naqueles tempos: enquanto as elites brigam pelo poder, a cidade da Bahia, assim como o resto do Brasil, definha, vítima de políticos corruptos e de um sistema judiciário que age com precariedade. Quanto ao povo, ele está alijado dessa luta, sendo inteiramente desconsiderado pelas duas facções, que não demonstram qualquer empenho em melhorar as condições de vida da população. No romance, este alijamento do povo é mostrado pela condição de pano de fundo para a construção do cenário da época a que ele se reduz.

Em Memorial do Convento, apresenta-se um Portugal cuja massa da população vive na miséria devido aos desvarios de um rei interessado apenas no prestígio pessoal. Além disso, o país está entregue ao completo misticismo, devido à opressão exercida pelo Santo Ofício. A construção do convento de Mafra, símbolo da megalomania do poder constituído, e que se levanta pelos métodos da opressão, choca-se com a construção da passarola, cuja criação depende do desejo de três pessoas – Padre Bartolomeu Lourenço, Baltasar e Blimunda – e que vai ao ar movida pelas vontades dos homens.

Se o autoritarismo, a opressão e a violência são fatores de destaque nos dois romances, eles enredam por caminhos diferentes que apontam para a constituição de imagens de Brasil e Portugal bastante distintas nas suas caracterizações políticas.

Enquanto em Boca do Inferno ocorre uma luta que visa derrubar o representante do poder, Antonio de Souza, que se voltou contra os interesses pessoais de famílias poderosas como a dos Vieira Ravasco e a dos Brito de Castro[1], em Memorial do Convento, não há confronto com o poder constituído. O autor apenas desenha o quadro de opressão e, através da ironia de seu narrador, sugere que aquele sistema opressivo poderá ser substituído por um no qual os trabalhadores tomem o poder em suas mãos, desde que eles acreditem que possuem a força para tal.

Diante dessas perspectivas diferenciadas, em Boca do Inferno a imagem paradisíaca do Brasil, sustentada através das suas belezas naturais, é subvertida em uma imagem do Inferno. Assim a autora descreve o que seria a cidade da Bahia em fins do século XVII:

 

Numa suave região cortada por rios límpidos, de céu sempre azul, terras férteis, florestas de árvores frondosas, a cidade parecia ser a imagem do Paraíso. Era, no entanto, onde os demônios aliciavam almas para povoarem o Inferno. (BI, p. 12)

 

            Vista como a entrada para o Inferno, é a cidade da Bahia a verdadeira “Boca do Inferno” e não o poeta Gregório de Matos, como a princípio poderia se imaginar. Esta visão do Inferno é aprofundada tanto pela licenciosidade da população em geral, como pela guerra que se trava entre as duas facções, pois ambas se entregam a práticas de extrema violência. Não há, na verdade, “mocinhos” nessa história, pois se o governador Antonio de Souza e seus aliados corrompem a justiça, perseguem seus oponentes e os matam, as práticas daqueles que estão do lado oposto não são muito diferentes. Um dos membros da facção dos Ravasco é o vereador Luiz Bonicho, político corrupto, que realizava negócios ilícitos para o governador. Passa para o outro lado quando Antonio de Souza descobre que Luiz Bonicho o estava enganando. Além disso, é o grupo dos Ravasco que assassina cruelmente o alcaide-mor, decepando-lhe a mão enquanto agonizava, e tenta, sem sucesso, assassinar o próprio governador.

            Contudo, devido à violência da perseguição lançada contra a facção dos Ravasco, esta acaba por se tornar mais simpática ao leitor, além de que os aliados do governador são mostrados como indivíduos extremamente frios e inescrupulosos, especialmente o irmão do alcaide morto, Antonio de Teles de Menezes.

            Em Memorial do Convento, a classe trabalhadora é a grande vítima das arbitrariedades do poder. De fato, a imagem de Portugal que o romance apresenta é a de um país que, apesar de estar sob a vigência da monarquia absoluta, é dominado por um clero hipócrita, manipulador e interesseiro, sendo feita exceção apenas ao Padre Bartolomeu Lourenço. O clero, além de controlar o rei, exerce influência sobre todas as práticas sociais, controlando inclusive as mentes através da opressão do sistema inquisitorial. A força da Igreja Católica naquele Portugal fica bem expressa nessa frase do romance: “por estas ruas, com uma igreja a cada esquina, um convento por quarteirão” (MC, p. 31). Esta força ganha relevo com a construção do convento de Mafra, que, a partir de determinado momento, torna-se o único ponto para o qual converge toda a força de trabalho do país.

            No pólo oposto da escala social está a classe trabalhadora que se torna o centro das atenções após o primeiro vôo da passarola, quando a ação passa a se concentrar em torno da obra do convento. Nesse ponto, sobressai a condição miserável em que vivem os trabalhadores e a opressão a que estão expostos, sendo tratados como escravos e não assalariados. Esta opressão é principalmente sentida no momento em que o rei decide que a sagração do convento será na data de seu aniversário, em mais uma de suas veleidades infantis. Isto pressupunha que a obra deveria estar concluída em dois anos, o que demandaria um trabalho descomunal. Para isso o rei manda arrebanhar trabalhadores em todas as partes do reino. A descrição da reunião de homens para a obra acentua a tragédia que abala o país, pois é vista em confronto com o canto dos grandes feitos portugueses, Os Lusíadas. No romance, enquanto as mulheres choram a partida de seus homens, elas remontam ao canto épico após as palavras agressivas que dirigem aos soldados em baixo calão:

 

Maldito sejas até à quinta geração, de lepra se te cubra o corpo todo, puta vejas a tua mãe, puta a tua mulher, puta a tua filha, empalado sejas do cu até à boca, maldito, maldito, maldito. Já vai andando a récua dos homens de Arganil, acompanhavam-nos até fora da vila as infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, Ó doce e amado esposo, [...], Ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice minha, (MC, p. 293),

           

O momento de maior violência, entretanto, é aquele em que um velho levanta sua voz contra a injustiça do poder, lembrando justamente o Velho do Restelo. Contudo, enquanto o velho dOs Lusíadas teve voz para criticar a maior empresa portuguesa, o velho de Memorial do Convento, descrito como um “labrego de tanta idade”, uma subversão do “velho de aspeito venerando” da épica camoniana, mal diz as primeira palavras, que remetem às do Velho do Restelo, “Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó pátria sem justiça,”, e é morto de forma grotesca, com uma cacetada.

            Nessa passagem estabelece-se o confronto entre o Portugal grandioso, que foi cantado pelo bardo português nOs Lusíadas e o Portugal miserável, que, apesar da enorme quantidade das riquezas coloniais que afluem ao reino, mantém seu povo submetido a mais completa miséria.

Por esses e outros retratos da opressão, como o do transporte da pedra de Pero Pinheiro a Mafra, Memorial do Convento acentua a barbárie[2] contida no monumento concebido para ser a maior obra religiosa portuguesa. Desse modo, o autor subverte a história tradicional, na qual os grandes monumentos são, geralmente, formas de eternização dos poderosos.

            Ao contrário de Boca do Inferno, em Memorial do Convento não é mostrada qualquer forma de luta contra o poder opressor. Os trabalhadores aceitam passivamente o seu destino, mas há uma semente que pode germinar e levar à transformação daquele meio social. O que se percebe então ao final de ambos os romances é que os dois oferecem perspectivas futuras bem diferentes e até inusitadas para o modo como a ação se encaminha para o desfecho.

            Em Boca do Inferno, o capítulo que finaliza a ação quebra toda a expectativa criada no seu início. Na abertura desse capítulo, ocorre a destituição do governador Antonio de Souza de seu cargo. Este acontecimento, conjugado à beleza do dia insistentemente reiterada, leva-nos a crer que os tempos de tirania e opressão que haviam imperado na cidade da Bahia haviam terminado. Contudo, esta suposição vai sendo frustrada com as informações seguintes. Apesar de destituído, o Braço de Prata não caíra das graças de el rei. Nada pudera ser provado das acusações feitas contra ele, pois as pessoas tinham medo de falar. Além disso, seus negócios escusos haviam feito dele um homem rico, riqueza esta que ele levaria para Portugal, onde ocuparia um bom cargo, vivendo em largo conforto. Enquanto isso, Padre Vieira, o homem que mais se empenhara na denúncia dos desmandos do governador, continuaria caído das graças reais, apesar de ter conseguido livrar seu irmão da prisão e acabar com as perseguições aos seus aliados.

            O relato desses fatos é concluído de maneira pessimista, com o narrador dizendo:

 

Afinal, não ficara bem claro quem estava condenado, quem estava glorificado, no resultado da contenda. (BI, p. 316)

 

            Este pessimismo é ampliado através da referência apocalíptica feita no penúltimo parágrafo desse capítulo, no qual são relatados aparecimentos de sinais no Sol e nas estrelas. As palavras do narrador que então fecham a ação são as seguintes:

 

Faltava apenas um sinal na Lua para que se confirmasse o texto Erunt signa in sole et luna et stellis.

Assim terminou o governo tirânico do Braço de Prata. (BI, p. 317)

 

            O desfecho de Boca do Inferno é, portanto, totalmente desalentador, visto que o pior parece que ainda estaria por vir.

            Já em Memorial do Convento, mesmo com a tragédia que se abate sobre Blimunda e Baltasar, o autor não deixa morrer a esperança de transformação, dando ao romance um final no estilo neo-realista, no qual as crenças utópicas se mantêm apesar de toda a adversidade. No decorrer da narrativa, o autor faz de seu narrador a voz que aponta a necessidade de mudança, tanto pela forma irônica como trata a realeza, o clero e a religião de maneira geral, como pelas colocações relativas à capacidade humana de sonhar e dar novos rumos à sua existência, como nesses dois exemplos:

 

porque o mundo é ele uma nora e são os homens que, andando em cima dele, o puxam e fazem andar. [...] é fácil ver que, faltando os homens, o mundo pára. (MC, p. 66)

 

Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu. (MC, p. 115)

 

             Blimunda aparece como o móvel dessa transformação, pois ao percorrer os caminhos de Portugal à procura de Baltasar vai disseminando um “fermento de desassossego”, como diz o narrador. Além disso, ela não deixa o sonho se perder ao recolher a vontade de Baltasar no momento de seu suplício na fogueira, suplício este que revela toda a arbitrariedade do sistema, que mata intelectuais como António José da Silva e trabalhadores inocentes como Sete-Sóis. Baltasar fora o homem que, mesmo com seus modos rudimentares, acreditara no sonho, envolvendo-se na construção da passarola e, após a morte do Padre Bartolomeu Lourenço, cuidando dela para que um dia voltasse a voar. Desse modo, o sonho está contido na sua vontade, e esta vontade, unida à sabedoria intuitiva de Blimunda, poderá ser a semente que produzirá o anseio por novos rumos para o país.

            Os dois romances, portanto, revelam-se profundamente ideológicos ao tomar a história por assunto. Ao dar destaque às práticas opressivas levadas a cabo pelo poder, eles trazem à luz problemas marcantes de Brasil e Portugal, deixando entrever tendências do direcionamento político assumido nas duas sociedades ao longo dos anos.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito da história” In: Magia e técnica, arte e política. Obras Escolhidas. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo, Brasiliense, 1985.

CALMON, Pedro. História do Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro. José Olympio, 1963, v. III.

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. 9.ed. São Paulo, Cultrix, 1995.

MARTINS, Oliveira. História de Portugal. 16.ed. Lisboa, Guimarães Editores, 1972.

MIRANDA, Ana. Boca do Inferno. 2.ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

SARAMAGO, José. Memorial do Convento. 11.ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1994.

SCHWARTZ, Stuart B. Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial – A Suprema Corte da Bahia e seus Juízes: 1609-1751. Trad. Maria Helena Pires Martins. São Paulo, Perspectiva, 1979.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal. 3. ed. Lisboa, Editorial Caminho, 1979.



[1] Antonio de Brito foi o assassino do alcaide-mor Teles de Menezes. No romance o sobrenome “de Castro” não é mencionado, mas ele surge nos relatos históricos sobre o caso. Cf. Schwartz, 1979, p. 219-222 e Calmon, 1963, p. 874-876.

[2] Benjamin, 1985, p. 225.